Captação da Lei Rouanet bate recorde e muda perfil do investidor
A captação da lei de incentivos via Lei Rouanet alcançou R$923,18 milhões no primeiro semestre de 2026, o maior volume já registrado para o período, de acordo com os dados do Sistema de Apoio às Leis de Incentivo à Cultura (Salic) . Esse valor representa uma uma alta de 17,6% (R$137,93 milhões) sobre os R$785,25 milhões do mesmo intervalo de 2025, período que já havia ultrapassado a arrecadação dos anos anteriores.
Mais do que um dado absoluto, os números revelam uma mudança de comportamento: o ritmo de crescimento do semestre superou a própria expansão anual da lei, que foi de 13,2% entre 2024 (R$3,04 bilhões) e 2025 (R$3,44 bilhões).
Se o volume captado impressiona, a origem desses recursos merece a mesma atenção. Os dados do Salic mostram que o crescimento recorde ainda está concentrada em um grupo pequeno de regiões e investidores: um padrão que se repete há anos e que começa a entrar no radar de quem acompanha o setor.
As regiões Sudeste e Sul reúnem 84,3% dos projetos culturais em execução no país, enquanto Norte, Nordeste e Centro-Oeste somados não chegam a 16%. São Paulo sozinho responde por 29% das iniciativas. Do lado de quem investe, as 20 maiores empresas patrocinadoras aplicaram mais de R$3,2 bilhões em 2025, mais de 90% de tudo que foi captado. As pessoas físicas, embora já somam mais de 13,5 mil, representam menos de 2% do valor total (Salic).
Para Vanessa Pires, CEO da Brada, empresa que conecta causas, investimentos e comunidades para democratizar a transformação social no Brasil, o recorde é uma boa notícia, mas os dados também servem de alerta. “O crescimento mostra que investir em cultura virou decisão estratégica, e isso é ótimo. Quando 90% do dinheiro vem apenas de vinte empresas e 84% dos projetos estão em duas regiões, é necessário admitir que o incentivo ainda é um clube fechado.” afirma.
Um estudo da FGV encomendado pelo Ministério da Cultura aponta que cada R$1 investido pela Lei Rouanet devolve R$7,59 à economia, movimento que só em 2024 injetou R$25,7 bilhões no país. Esse resultado nasce da cadeia produtiva mobilizada por trás de cada proposta. Uma peça de teatro, por exemplo, movimenta profissionais de cenografia e figurino, que dependem de insumos que o próprio teatro não fabrica, como tecidos , e que remontam a matérias-primas de outras cadeias. Por isso, o número de pessoas beneficiadas vai muito além do público que assiste ao espetáculo.
Promover a igualdade na distribuição desses recursos não é apenas uma reparação histórica com as regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul, mas um investimento estratégico no futuro do país. Fortalecer as periferias e as identidades locais por meio de incentivos fiscais é o caminho mais seguro para construir um ecossistema social e econômico verdadeiramente sustentável e inclusivo.
“Democratizar não é só captar mais — é fazer com que mais empresas, mais investidores e mais comunidades, dentro e fora do eixo Rio-São Paulo, consigam entrar nessa conta”. Conclui Vanessa.
